1989: um time que não terminou

Anderson Dorival Fernandes *

Como se fosse hoje, eu lembro com uma riqueza enorme de detalhes uma noite estrelada do fim da década de oitenta, uma quarta-feira. Eu nunca tinha visto um gramado tão verde. E, naquela época, – eu apaixonado por filmes de guerra – nenhuma farda militar me arrancou tantos suspiros como aquele uniforme de calção azul, camisa vermelha com golas e mangas na cor do calção e meias brancas. Quando aquele exército entrou em campo, eu, verdadeiramente, não fui mais o mesmo.

A fumaça laranja, ativada por uma contagiante massa chamada “Força Jovem”, foi se confundindo com o sereno na noite “peixeira” e a nitidez que dali surgiu revelou que a batalha começaria. É. Foi assim que, na minha infância, eu vi pela primeira vez o Marcílio. O Cílio, imponente, jogando no Gigantão das Avenidas.

O jogo era contra o forte Criciúma, mas o Rubro-Anil, naquele ano, era um dos mais temíveis times da história não só marcilista, mas da história do futebol catarinense. A vitória veio por 2 a 1, liquidada pelo eterno matador Joel e o habilidoso camisa 10 Mário, o Mário Botuverá.

Naquele dia, nasceu dentro de mim uma paixão – um amor verdadeiro, isso sim! –, impulsionado pelo meu tio Dido, o maior marcilista que se tem notícia. Embora o mundo cheio de cifras e vazio de romantismo do futebol atual desfile suas estrelas e troféus, eu insisto que não houve time como o Marcílio de 1989.

Além de Joel e Mário, tínhamos o goleiro Mauro, o pegador de pênaltis. Rosemiro, o Patinho Feio, era o lateral direito. Os beques eram Toninho Camarão e Ademir Capacete. A lateral esquerda era tomada pelo mais carismático, o xodó da torcida, o Calinho, o Calinho do Parque:

– É ESSE CALINHO!

No meio, o dono da cabeça de área era o Wilsinho, com Botuverá pela esquerda e Gelson, o Gelsinho, pela direita. O ataque era uma máquina: Joel, Jairo Lenzi e Sidnei, que tinha um reserva de luxo, Rogério Uberaba.

O time ainda tinha o goleiro Alemão, o Gilmar Madeira, o Fisher e o técnico era o Veiguinha. Ganhamos o primeiro e o segundo turnos em cima do JEC, mas não levamos o Catarinense daquele ano.

Vinte e um anos se passaram, um vice-campeonato, dois rebaixamentos e tantas outras páginas foram escritas na história do Marinheiro, mas o coração ainda vê o encantamento que era palpável a cada lance daquele time. Hoje olho através das grades do Gigantão e vejo, milimetricamente, onde a bola entrava a cada pênalti decisivo que o Gelsinho cobrava ou onde ela entrou no gol olímpico do Rogério Uberaba. O tempo não apaga. Aliás, o tempo desfalece ante a eternidade impressa pelo Marcílio Dias de 1989.

Quem tem duas cores no coração entende do que estou falando...

* Anderson Dorival Fernandes é marcilista desde sempre e destruiu um controle remoto de TV quando o Marinheiro eliminou o Figueirense na semifinal do Catarinense de 2000.